Existe algo muito profundo em mim com relação à liberdade. Não é sobre não ter compromissos, não é sobre não ter a quem dar satisfação, isso não me incomoda. É sobre decidir sobre sua própria vida, decidir seu próprio destino.
Todos - sim, todos, nunca vi alguém falando o contrário por mais pobre que tenha sido sua infância - sempre olham com olhos nostalgicos para sua infância. Mesmo quando há memórias ruins, as pessoas sempre tem algum lugar no tempo, algum momento da sua infância que lhe traz aquela saudade, aquela vontade de dar tudo para voltar àquele momento. Eu não. Eu não consigo. Minha infância foi incrível, com momentos bons e ruins, medos, asiedades, mas paz, calmaria e amor. Mas não, eu não queria voltar pra ela. Não, não foi o momento de ouro da minha vida. Por um semples fato: eu não tinha liberdade.
Minha vida, não era minha, era de outros. Mesmo tendo tido uma boa familia, mãe e pai que me ouviam e me entendiam, tios que faziam as minhas vontades, mesmo assim, eu não tinha liberdade. Mesmo que minha mãe me permitisse assistir TV até mais tarde, brincar um pouco mais, mesmo assim, ela estava permitindo. Minha vida não era minha. Minhas escolhas não tinham valor. Minhas vontades eram consideradas condicionalmente.
Eu não sei o que é, mas eu sei que é. Minha vida dourada começou quando eu fui dona da minha própria vida. Há algo no cerne do meu ser que necessita de liberdade assim como uma planta necessita de terra, um peixe necessita de água. Sem liberdade, eu não vivo. Sem liberdade eu não existo. Sem liberdade, eu sou ninguém.
Dito isso, um dos conceitos que mais me atingem é escravidão. Filmes, livros, histórias, vida real. Quando esse conceito aparece, uma faca é cravada em meu estômago. É amargo. É profundo. Mas há uma boa maneira de lidar com isso.
Outro dia essa música apareceu pra mim, e eu gostei. Demorei para entender o sentido dela, mas ela me involveu. Não fala sobre escravidão, mas fala sobre uma miséria profunda. É pesada, é dolorida. Chegou neste mesmo lugar do meu estômago, e com isso, eu criei algo.
Um conto: O Herdeiro da Desgraça
A primeira
nota fez a taverna ficar quieta. Não completamente.
Nunca havia
silêncio de verdade na Baixa Misericórdia. Havia o estalar da lenha úmida, o
tinido dos copos de estanho, o arrastar de bancos sobre o chão e, vez ou outra,
o som seco de uma marca arcana despertando sob a pele de algum escravo que se
afastara demais de onde tinha permissão para estar.
Mas as
conversas morreram e isso bastava. Edrin estava sentado sobre um banco baixo,
perto da lareira. Uma das pernas era menor que as outras e fazia o assento
oscilar levemente quando ele respirava fundo.
O alaúde
não era dele. Nada era. Nem o instrumento. Nem as botas gastas. Nem a camisa
escura, que jazia aberta sobre os ombros.
A marca no
lado esquerdo de seu peito lembrava-o disso sempre que precisava. Linhas
negras, finas como galhos secos, desenhavam-se sob a pele e convergiam para um
pequeno círculo abaixo da clavícula. Quando criança, Edrin achava que parecia
uma aranha.
Depois
aprendeu que aranhas eram livres.
O dono da taverna costumava dizer que música era a única coisa que um escravo podia produzir sem
gastar farinha. Edrin já achara graça nisso, agora não achava mais.
Passou o
polegar pelas cordas. A segunda nota veio baixa, depois a terceira. No fundo da
sala, alguém murmurou o nome da canção.
– Céus
Azuis.
Edrin
ergueu os olhos.
Acima da
lareira havia dois pequenos nichos de pedra. Num deles, uma figura feminina
curvava a cabeça, mãos unidas sobre o colo, o rosto liso e sem olhos. No outro,
outra figura sorria atrás de um véu talhado no mármore. Ninguém sabia seus
nomes. Talvez jamais tivessem tido nomes. Na cidade, bastava dizer o que
representavam: “Miséria e Submissão”, “Vergonha e Corrupção”. Havia igrejas
inteiras erguidas para ambas. Torres, sinos, procissões, altares cobertos de
ouro. Os sacerdotes ensinavam que a dor purificava e que obedecer era uma forma
de paz.
Os pobres
rezavam para a primeira. Os ricos faziam oferendas à segunda. E os escravos
pertenciam às duas.
Edrin
começou a cantar:
– Céus
azuis, céus azuis... por que ficaram cinzentos?
Sua voz não
era grande. Era pior que isso. Era verdadeira.
Algumas
pessoas abaixaram os olhos.
Ele cantou
sobre uma corda pendurada numa árvore, sobre uma coroa perdida no feno, sobre
lobos que seguiam um homem até sua casa, embora homens como Edrin raramente
tivessem casa alguma. Quando chegou ao verso da faca, os dedos apertaram o
braço do alaúde... Havia uma cicatriz na palma de sua mão direita. O público
não sabia de onde vinha. Seu pai soubera, sua mãe também. Ambos estavam mortos.
Edrin
continuou.
– “Pedras tornaram-se vermes. Feras tornaram-se hábitos.”
E por um
instante ele voltou a ter oito anos.
Seu pai
estava sentado ao lado de uma fogueira quase apagada, com as mãos inchadas
depois de um dia quebrando pedras para a construção de uma nova igreja. A marca
arcana dele cobria metade do pescoço. Era antiga, grossa e escura. Toda vez que
desobedecia, brilhava em vermelho. Naquela noite, brilhava pouco.
– Sabe o
que somos? – perguntara o homem.
Edrin
conhecia a resposta: “Escravos”, mas nada respondeu. O pai apontou para a
própria cabeça.
– Reis.
Edrin riu.
Ambos riram.
– Reis sem
terras. Reis sem ouro. Reis sem trono.
Depois
abrira os braços, mostrando o barracão, a palha suja e os outros homens
dormindo no chão.
– Reis dos
tolos.
Naquela
época Edrin pensara que era uma brincadeira. Demorou quinze anos para entender...
Seu pai não estava dizendo que descendiam de reis. Não havia palácio perdido, brasão
escondido. Não havia fortuna roubada esperando ser reclamada. Era algo pior, e
mais bonito.
O pai dizia
que havia uma espécie de loucura em continuar acreditando que um homem
pertencia a si mesmo quando tudo no mundo dizia o contrário. O corpo podia
receber uma marca, o nome podia constar num livro de propriedade, os filhos
podiam nascer devendo uma dívida que jamais haviam contraído. Ainda assim,
alguma coisa no fundo da alma continuava sentada num trono invisível.
Era uma
coisa miserável. Ridícula. Perigosa. Mas estava lá...
Edrin
cantou:
– Rei dos
tolos, com cetro e coroa... – Mas dessa vez... alguém cantou com ele.
Uma voz baixa,
quase um sussurro.
– Rei dos
tolos, com cetro e coroa... – Edrin quase perdeu a próxima nota. Um carregador
perto da parede acompanhava a música. Ele tinha uma marca arcana no antebraço,
parcialmente escondida sob uma faixa suja. Edrin continuou...
Uma mulher
junto à porta entrou no verso seguinte. Depois, um velho de mãos queimadas
perto da lareira.
– Rei dos
tolos, com cetro e coroa...
No balcão,
um dos guardas franziu o cenho. Não era a primeira vez que ele ouvia aquela
canção, Edrin já a cantara muitas noites para bêbados, mercadores, sacerdotes
de passagem, para homens que riam alto demais e mulheres que choravam
escondidas no fundo da sala.
O soar da
corda se repetia no refrão, com as vozes misturadas que acompanhavam o som. Era
como uma respiração que consegue encher um pouco o peito, mas nunca
completamente. E assim, sucessivamente.
A música
trazia o peso da miséria que Edrin sofria, em pequenas frases, alegorias que se
sentiam verdadeiras. Sentiam verdadeiras porque a música falava de Edrin mas
falava de todos ali.
Nunca
ninguém o impedira de cantar. Era uma canção triste e homens tristes não são perigosos. Um escravo podia cantar sobre a
própria miséria, amaldiçoar a fome e lamentar os mortos. Podia até sonhar que
era rei, desde que, ao fim da noite, se lembrasse de que não era. Isso seria
até uma oferenda à Miséria, uma oferenda à Submissão.
“Rei dos tolos, com seu cetro e coroa
Sentado em seu trono, olhando abaixo.
Ele está cheio de furos, mas ainda levita,
Embora o chumbo pese preso ao pescoço.
Mãos de vidro, delicadas e transparentes...”
Havia mãos
de vidro que ninguém amado conseguia enxergar. Sua mãe tinha mãos assim. Depois
de anos lavando as roupas dos sacerdotes, a pele ficara tão fina que sangrava
durante o inverno. Quando Edrin era pequeno, ela escondia as mãos dentro das
mangas para que ele não visse. Mas ele via, os filhos sempre veem.
– “... Não
podem ser vistas por aqueles que ele ama...” – Sua voz falhou, um pouco. Isso tornou a canção
melhor.
Mais duas
pessoas começaram a acompanhar. Depois três.
Edrin olhou
para o guarda. O homem havia se endireitado na cadeira.
Foi então
que Edrin ouviu as próprias palavras de um jeito diferente. Quando ele cantava
sozinho, o Rei dos Tolos era seu pai, talvez fosse ele próprio; um homem
miserável que, mesmo sem possuir sequer o próprio corpo, insistia em guardar
dentro de si a lembrança absurda de que nascera homem e não propriedade. Mas
quando vinte vozes cantavam juntas, já não havia um único Rei dos Tolos naquela
sala, havia vinte, talvez cinquenta.
O guarda
pareceu perceber antes dele.
Uma canção
sobre um escravo era um lamento. Uma canção que fazia todos os escravos
reconhecerem a si mesmos era outra coisa.
O homem
largou o copo sobre o balcão, levantou– se. Sua mão repousou sobre o símbolo
das duas igrejas preso ao peito. Edrin assitia, enquanto cantava. Então veio o
último verso.
O mais
difícil. O mais profundo. O mais doloroso e talvez onde mais todos se
encontravam.
Falava de
um herdeiro da desgraça, um homem que recebera dívida no lugar de herança, fome
no lugar de terras, palha no lugar de lençóis. Vergonha no lugar de sobrenome.
Edrin não
precisara inventar aquela parte. Quando nasceu, o escriba registrou seu nome
abaixo do nome da mãe, não como filho, como acréscimo, mais uma propriedade, mais
duas mãos. Mais uma vida que já pertencia a alguém antes mesmo de aprender a
falar.
Ele tocou
mais devagar.
– "Sua alma
foi levada... e amarrada a um mastro..."
Agora até a
lenha parecia queimar em silêncio.
Diante dele
havia gente cansada. Trabalhadores, prostitutas, carregadores, ladrões. Escravos
fingindo, ou sonhando, algumas horas de liberdade antes do sino da noite.
Todos
olhando para ele.
Então veio
o refrão.
Edrin não
cantou mais alto.
Não
precisava.
– "Como o
girar da roda... como o frio do aço..."
O
carregador, a mulher, o velho. Talvez Edrin podia jurar que todos na taverna
escura mexiam seus lábios em ressonança. O som cresceu pelas paredes da
taverna. O dono parou de limpar um copo, seu rosto parecia ter perdido a cor. Não
porque a canção fosse proibida, ela não era. Tinham ouvido aquelas palavras
dezenas de vezes e nunca haviam percebido o que havia dentro delas. “Miséria e
Submissão” não temiam um homem que chorava sua sorte. “Vergonha e Corrupção”
não temiam um escravo que acreditava ser indigno. Mas naquela noite ninguém
parecia envergonhado, e ninguém cantava sozinho.
–... "Não
adianta chorar na toca do leão..."
O segundo
guarda se levantou, a cadeira raspou o chão. Algumas vozes morreram, outras
não. A marca no peito de Edrin esquentou, um aviso. O dono da taverna fez um
gesto desesperado: “chega!”, era isso que seus olhos diziam.
Edrin olhou
novamente para as duas figuras sobre a lareira. A primeira mantinha a cabeça
baixa. A segunda escondia o rosto atrás do véu. Durante toda sua vida ensinaram–lhe que uma queria sua obediência, a outra, sua vergonha. Talvez aquela fosse a
verdadeira corrente. Talvez a corrente mais forte fosse acreditar que ela era devida.
Edrin tocou
o refrão outra vez, mais forte. As vozes voltaram. O guarda deu um passo em sua
direção, a marca arcana no peito de Edrin brilhou, a dor atravessou suas
costelas. Branca, violenta. Seus dedos falharam por um instante, a taverna
inteira viu, ninguém cantou e, por um segundo, Edrin pensou que a música tinha
acabado. Então o carregador perto da parede retomou sozinho:
– "Como o
girar da roda..."
A mulher
junto à porta respondeu:
– "Como o
frio do aço..."
O velho
entrou em seguida.
Depois
outro.
E outro.
Edrin
ergueu a cabeça, a dor ainda estava lá. Mas agora, eles cantavam sem ele. Foi
então que compreendeu, ele passara anos cantando sobre a própria dor, sem
perceber, que cantara sobre a dor deles também, e aquela canção já não lhe
pertencia.
O guarda
avançou, a marca queimou outra vez, Edrin quase caiu do banco. Mesmo assim,
sorriu.
Uma coisa
estranha cresceu dentro de seu peito.Não esperança, esperança era uma palavra
grande demais. Era algo menor. Mais perigoso... A lembrança de que seu pai
estivera certo. Um homem podia ser comprado, podia ser vendido, podia nascer
com o preço escrito antes mesmo de aprender o próprio nome. Podiam desenhar
magia em sua pele, podiam ensinar–lhe obediência, podiam ensinar–lhe
vergonha. Mas havia um lugar pequeno, absurdamente pequeno, onde nenhuma igreja
conseguia pôr as mãos. E naquele lugar Edrin ainda usava uma coroa. De madeira.
De palha. De nada. Uma coroa feita para um tolo.
A taverna
silenciou quando ele voltou a tocar. O guarda estava a poucos passos. Edrin
olhou para ele, depois olhou para as duas figuras sobre a lareira. E cantou o
último verso sozinho:
– "Céus
azuis, céus azuis... por que ficaram cinzentos?"
Ninguém
respondeu.
Ele deixou
a última nota morrer.
Então
ergueu o rosto.
A marca
ainda ardia. O guarda ainda estava diante dele. As igrejas ainda dominavam a
cidade. Nada havia mudado, e, ao mesmo tempo, alguma coisa havia. Pela primeira
vez em sua vida, Edrin não baixou a cabeça.
“Naquela
noite, todos cantaram juntos. Como a roda continua girando, como o frio perene do
aço. Não há uso para o choro, na toca do Leão.”
Manoela Brum