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terça-feira, 25 de agosto de 2026

The broken need to fly

Existe algo muito profundo em mim com relação à liberdade. Não é sobre não ter compromissos, não é sobre não ter a quem dar satisfação, isso não me incomoda. É sobre decidir sobre sua própria vida, decidir seu próprio destino.

Todos - sim, todos, nunca vi alguém falando o contrário por mais pobre que tenha sido sua infância - sempre olham com olhos nostalgicos para sua infância. Mesmo quando há memórias ruins, as pessoas sempre tem algum lugar no tempo, algum momento da sua infância que lhe traz aquela saudade, aquela vontade de dar tudo para voltar àquele momento. Eu não. Eu não consigo. Minha infância foi incrível, com momentos bons e ruins, medos, asiedades, mas paz, calmaria e amor. Mas não, eu não queria voltar pra ela. Não, não foi o momento de ouro da minha vida. Por um semples fato: eu não tinha liberdade. 

Minha vida, não era minha, era de outros. Mesmo tendo tido uma boa familia, mãe e pai que me ouviam e me entendiam, tios que faziam as minhas vontades, mesmo assim, eu não tinha liberdade. Mesmo que minha mãe me permitisse assistir TV até mais tarde, brincar um pouco mais, mesmo assim, ela estava permitindo. Minha vida não era minha. Minhas escolhas não tinham valor. Minhas vontades eram consideradas condicionalmente.

Eu não sei o que é, mas eu sei que é. Minha vida dourada começou quando eu fui dona da minha própria vida. Há algo no cerne do meu ser que necessita de liberdade assim como uma planta necessita de terra, um peixe necessita de água. Sem liberdade, eu não vivo. Sem liberdade eu não existo. Sem liberdade, eu sou ninguém.

Dito isso, um dos conceitos que mais me atingem é escravidão. Filmes, livros, histórias, vida real. Quando esse conceito aparece, uma faca é cravada em meu estômago. É amargo. É profundo. Mas há uma boa maneira de lidar com isso.

Outro dia essa música apareceu pra mim, e eu gostei. Demorei para entender o sentido dela, mas ela me involveu. Não fala sobre escravidão, mas fala sobre uma miséria profunda. É pesada, é dolorida. Chegou neste mesmo lugar do meu estômago, e com isso, eu criei algo.

Heir To Woe - Holy Locust


Um conto: O Herdeiro da Desgraça

A primeira nota fez a taverna ficar quieta. Não completamente.

Nunca havia silêncio de verdade na Baixa Misericórdia. Havia o estalar da lenha úmida, o tinido dos copos de estanho, o arrastar de bancos sobre o chão e, vez ou outra, o som seco de uma marca arcana despertando sob a pele de algum escravo que se afastara demais de onde tinha permissão para estar.

Mas as conversas morreram e isso bastava. Edrin estava sentado sobre um banco baixo, perto da lareira. Uma das pernas era menor que as outras e fazia o assento oscilar levemente quando ele respirava fundo.

O alaúde não era dele. Nada era. Nem o instrumento. Nem as botas gastas. Nem a camisa escura, que jazia aberta sobre os ombros.

A marca no lado esquerdo de seu peito lembrava-o disso sempre que precisava. Linhas negras, finas como galhos secos, desenhavam-se sob a pele e convergiam para um pequeno círculo abaixo da clavícula. Quando criança, Edrin achava que parecia uma aranha.

Depois aprendeu que aranhas eram livres.

O dono da taverna costumava dizer que música era a única coisa que um escravo podia produzir sem gastar farinha. Edrin já achara graça nisso, agora não achava mais.

Passou o polegar pelas cordas. A segunda nota veio baixa, depois a terceira. No fundo da sala, alguém murmurou o nome da canção.

– Céus Azuis.

Edrin ergueu os olhos.

Acima da lareira havia dois pequenos nichos de pedra. Num deles, uma figura feminina curvava a cabeça, mãos unidas sobre o colo, o rosto liso e sem olhos. No outro, outra figura sorria atrás de um véu talhado no mármore. Ninguém sabia seus nomes. Talvez jamais tivessem tido nomes. Na cidade, bastava dizer o que representavam: “Miséria e Submissão”, “Vergonha e Corrupção”. Havia igrejas inteiras erguidas para ambas. Torres, sinos, procissões, altares cobertos de ouro. Os sacerdotes ensinavam que a dor purificava e que obedecer era uma forma de paz.

Os pobres rezavam para a primeira. Os ricos faziam oferendas à segunda. E os escravos pertenciam às duas.

Edrin começou a cantar:

– Céus azuis, céus azuis... por que ficaram cinzentos?

Sua voz não era grande. Era pior que isso. Era verdadeira.

Algumas pessoas abaixaram os olhos.

Ele cantou sobre uma corda pendurada numa árvore, sobre uma coroa perdida no feno, sobre lobos que seguiam um homem até sua casa, embora homens como Edrin raramente tivessem casa alguma. Quando chegou ao verso da faca, os dedos apertaram o braço do alaúde... Havia uma cicatriz na palma de sua mão direita. O público não sabia de onde vinha. Seu pai soubera, sua mãe também. Ambos estavam mortos.

Edrin continuou.

 – “Pedras tornaram-se vermes. Feras tornaram-se hábitos.”

E por um instante ele voltou a ter oito anos.

Seu pai estava sentado ao lado de uma fogueira quase apagada, com as mãos inchadas depois de um dia quebrando pedras para a construção de uma nova igreja. A marca arcana dele cobria metade do pescoço. Era antiga, grossa e escura. Toda vez que desobedecia, brilhava em vermelho. Naquela noite, brilhava pouco.

– Sabe o que somos? – perguntara o homem.

Edrin conhecia a resposta: “Escravos”, mas nada respondeu. O pai apontou para a própria cabeça.

– Reis.

Edrin riu. Ambos riram.

– Reis sem terras. Reis sem ouro. Reis sem trono.

Depois abrira os braços, mostrando o barracão, a palha suja e os outros homens dormindo no chão.

– Reis dos tolos.

Naquela época Edrin pensara que era uma brincadeira. Demorou quinze anos para entender... Seu pai não estava dizendo que descendiam de reis. Não havia palácio perdido, brasão escondido. Não havia fortuna roubada esperando ser reclamada. Era algo pior, e mais bonito.

O pai dizia que havia uma espécie de loucura em continuar acreditando que um homem pertencia a si mesmo quando tudo no mundo dizia o contrário. O corpo podia receber uma marca, o nome podia constar num livro de propriedade, os filhos podiam nascer devendo uma dívida que jamais haviam contraído. Ainda assim, alguma coisa no fundo da alma continuava sentada num trono invisível.

Era uma coisa miserável. Ridícula. Perigosa. Mas estava lá...

Edrin cantou:

– Rei dos tolos, com cetro e coroa... – Mas dessa vez... alguém cantou com ele.

Uma voz baixa, quase um sussurro.

– Rei dos tolos, com cetro e coroa... – Edrin quase perdeu a próxima nota. Um carregador perto da parede acompanhava a música. Ele tinha uma marca arcana no antebraço, parcialmente escondida sob uma faixa suja. Edrin continuou...

Uma mulher junto à porta entrou no verso seguinte. Depois, um velho de mãos queimadas perto da lareira.

– Rei dos tolos, com cetro e coroa...

No balcão, um dos guardas franziu o cenho. Não era a primeira vez que ele ouvia aquela canção, Edrin já a cantara muitas noites para bêbados, mercadores, sacerdotes de passagem, para homens que riam alto demais e mulheres que choravam escondidas no fundo da sala.

O soar da corda se repetia no refrão, com as vozes misturadas que acompanhavam o som. Era como uma respiração que consegue encher um pouco o peito, mas nunca completamente. E assim, sucessivamente.

A música trazia o peso da miséria que Edrin sofria, em pequenas frases, alegorias que se sentiam verdadeiras. Sentiam verdadeiras porque a música falava de Edrin mas falava de todos ali.

Nunca ninguém o impedira de cantar. Era uma canção triste e homens tristes não são  perigosos. Um escravo podia cantar sobre a própria miséria, amaldiçoar a fome e lamentar os mortos. Podia até sonhar que era rei, desde que, ao fim da noite, se lembrasse de que não era. Isso seria até uma oferenda à Miséria, uma oferenda à Submissão.

“Rei dos tolos, com seu cetro e coroa

Sentado em seu trono, olhando abaixo.

Ele está cheio de furos, mas ainda levita,

Embora o chumbo pese preso ao pescoço.

Mãos de vidro, delicadas e transparentes...”

Havia mãos de vidro que ninguém amado conseguia enxergar. Sua mãe tinha mãos assim. Depois de anos lavando as roupas dos sacerdotes, a pele ficara tão fina que sangrava durante o inverno. Quando Edrin era pequeno, ela escondia as mãos dentro das mangas para que ele não visse. Mas ele via, os filhos sempre veem.

– “... Não podem ser vistas por aqueles que ele ama...” – Sua voz falhou, um pouco. Isso tornou a canção melhor.

Mais duas pessoas começaram a acompanhar. Depois três.

Edrin olhou para o guarda. O homem havia se endireitado na cadeira.

Foi então que Edrin ouviu as próprias palavras de um jeito diferente. Quando ele cantava sozinho, o Rei dos Tolos era seu pai, talvez fosse ele próprio; um homem miserável que, mesmo sem possuir sequer o próprio corpo, insistia em guardar dentro de si a lembrança absurda de que nascera homem e não propriedade. Mas quando vinte vozes cantavam juntas, já não havia um único Rei dos Tolos naquela sala, havia vinte, talvez cinquenta.

O guarda pareceu perceber antes dele.

Uma canção sobre um escravo era um lamento. Uma canção que fazia todos os escravos reconhecerem a si mesmos era outra coisa.

O homem largou o copo sobre o balcão, levantou– se. Sua mão repousou sobre o símbolo das duas igrejas preso ao peito. Edrin assitia, enquanto cantava. Então veio o último verso.

O mais difícil. O mais profundo. O mais doloroso e talvez onde mais todos se encontravam.

Falava de um herdeiro da desgraça, um homem que recebera dívida no lugar de herança, fome no lugar de terras, palha no lugar de lençóis. Vergonha no lugar de sobrenome.

Edrin não precisara inventar aquela parte. Quando nasceu, o escriba registrou seu nome abaixo do nome da mãe, não como filho, como acréscimo, mais uma propriedade, mais duas mãos. Mais uma vida que já pertencia a alguém antes mesmo de aprender a falar.

Ele tocou mais devagar.

– "Sua alma foi levada... e amarrada a um mastro..."

Agora até a lenha parecia queimar em silêncio.

Diante dele havia gente cansada. Trabalhadores, prostitutas, carregadores, ladrões. Escravos fingindo, ou sonhando, algumas horas de liberdade antes do sino da noite.

Todos olhando para ele.

Então veio o refrão.

Edrin não cantou mais alto.

Não precisava.

– "Como o girar da roda... como o frio do aço..."

O carregador, a mulher, o velho. Talvez Edrin podia jurar que todos na taverna escura mexiam seus lábios em ressonança. O som cresceu pelas paredes da taverna. O dono parou de limpar um copo, seu rosto parecia ter perdido a cor. Não porque a canção fosse proibida, ela não era. Tinham ouvido aquelas palavras dezenas de vezes e nunca haviam percebido o que havia dentro delas. “Miséria e Submissão” não temiam um homem que chorava sua sorte. “Vergonha e Corrupção” não temiam um escravo que acreditava ser indigno. Mas naquela noite ninguém parecia envergonhado, e ninguém cantava sozinho.

–... "Não adianta chorar na toca do leão..."

O segundo guarda se levantou, a cadeira raspou o chão. Algumas vozes morreram, outras não. A marca no peito de Edrin esquentou, um aviso. O dono da taverna fez um gesto desesperado: “chega!”, era isso que seus olhos diziam.

Edrin olhou novamente para as duas figuras sobre a lareira. A primeira mantinha a cabeça baixa. A segunda escondia o rosto atrás do véu. Durante toda sua vida ensinaram–lhe que uma queria sua obediência, a outra, sua vergonha. Talvez aquela fosse a verdadeira corrente. Talvez a corrente mais forte fosse acreditar que ela era devida.

Edrin tocou o refrão outra vez, mais forte. As vozes voltaram. O guarda deu um passo em sua direção, a marca arcana no peito de Edrin brilhou, a dor atravessou suas costelas. Branca, violenta. Seus dedos falharam por um instante, a taverna inteira viu, ninguém cantou e, por um segundo, Edrin pensou que a música tinha acabado. Então o carregador perto da parede retomou sozinho:

– "Como o girar da roda..."

A mulher junto à porta respondeu:

– "Como o frio do aço..."

O velho entrou em seguida.

Depois outro.

E outro.

Edrin ergueu a cabeça, a dor ainda estava lá. Mas agora, eles cantavam sem ele. Foi então que compreendeu, ele passara anos cantando sobre a própria dor, sem perceber, que cantara sobre a dor deles também, e aquela canção já não lhe pertencia.

O guarda avançou, a marca queimou outra vez, Edrin quase caiu do banco. Mesmo assim, sorriu.

Uma coisa estranha cresceu dentro de seu peito.Não esperança, esperança era uma palavra grande demais. Era algo menor. Mais perigoso... A lembrança de que seu pai estivera certo. Um homem podia ser comprado, podia ser vendido, podia nascer com o preço escrito antes mesmo de aprender o próprio nome. Podiam desenhar magia em sua pele, podiam ensinar–lhe obediência, podiam ensinar–lhe vergonha. Mas havia um lugar pequeno, absurdamente pequeno, onde nenhuma igreja conseguia pôr as mãos. E naquele lugar Edrin ainda usava uma coroa. De madeira. De palha. De nada. Uma coroa feita para um tolo.

A taverna silenciou quando ele voltou a tocar. O guarda estava a poucos passos. Edrin olhou para ele, depois olhou para as duas figuras sobre a lareira. E cantou o último verso sozinho:

– "Céus azuis, céus azuis... por que ficaram cinzentos?"

Ninguém respondeu.

Ele deixou a última nota morrer.

Então ergueu o rosto.

A marca ainda ardia. O guarda ainda estava diante dele. As igrejas ainda dominavam a cidade. Nada havia mudado, e, ao mesmo tempo, alguma coisa havia. Pela primeira vez em sua vida, Edrin não baixou a cabeça.

 

  

“Naquela noite, todos cantaram juntos. Como a roda continua girando, como o frio perene do aço. Não há uso para o choro, na toca do Leão.”


Manoela Brum

 


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