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terça-feira, 25 de agosto de 2026

The broken need to fly

Existe algo muito profundo em mim com relação à liberdade. Não é sobre não ter compromissos, não é sobre não ter a quem dar satisfação, isso não me incomoda. É sobre decidir sobre sua própria vida, decidir seu próprio destino.

Todos - sim, todos, nunca vi alguém falando o contrário por mais pobre que tenha sido sua infância - sempre olham com olhos nostalgicos para sua infância. Mesmo quando há memórias ruins, as pessoas sempre tem algum lugar no tempo, algum momento da sua infância que lhe traz aquela saudade, aquela vontade de dar tudo para voltar àquele momento. Eu não. Eu não consigo. Minha infância foi incrível, com momentos bons e ruins, medos, asiedades, mas paz, calmaria e amor. Mas não, eu não queria voltar pra ela. Não, não foi o momento de ouro da minha vida. Por um semples fato: eu não tinha liberdade. 

Minha vida, não era minha, era de outros. Mesmo tendo tido uma boa familia, mãe e pai que me ouviam e me entendiam, tios que faziam as minhas vontades, mesmo assim, eu não tinha liberdade. Mesmo que minha mãe me permitisse assistir TV até mais tarde, brincar um pouco mais, mesmo assim, ela estava permitindo. Minha vida não era minha. Minhas escolhas não tinham valor. Minhas vontades eram consideradas condicionalmente.

Eu não sei o que é, mas eu sei que é. Minha vida dourada começou quando eu fui dona da minha própria vida. Há algo no cerne do meu ser que necessita de liberdade assim como uma planta necessita de terra, um peixe necessita de água. Sem liberdade, eu não vivo. Sem liberdade eu não existo. Sem liberdade, eu sou ninguém.

Dito isso, um dos conceitos que mais me atingem é escravidão. Filmes, livros, histórias, vida real. Quando esse conceito aparece, uma faca é cravada em meu estômago. É amargo. É profundo. Mas há uma boa maneira de lidar com isso.

Outro dia essa música apareceu pra mim, e eu gostei. Demorei para entender o sentido dela, mas ela me involveu. Não fala sobre escravidão, mas fala sobre uma miséria profunda. É pesada, é dolorida. Chegou neste mesmo lugar do meu estômago, e com isso, eu criei algo.

Heir To Woe - Holy Locust


Um conto: O Herdeiro da Desgraça

A primeira nota fez a taverna ficar quieta. Não completamente.

Nunca havia silêncio de verdade na Baixa Misericórdia. Havia o estalar da lenha úmida, o tinido dos copos de estanho, o arrastar de bancos sobre o chão e, vez ou outra, o som seco de uma marca arcana despertando sob a pele de algum escravo que se afastara demais de onde tinha permissão para estar.

Mas as conversas morreram e isso bastava. Edrin estava sentado sobre um banco baixo, perto da lareira. Uma das pernas era menor que as outras e fazia o assento oscilar levemente quando ele respirava fundo.

O alaúde não era dele. Nada era. Nem o instrumento. Nem as botas gastas. Nem a camisa escura, que jazia aberta sobre os ombros.

A marca no lado esquerdo de seu peito lembrava-o disso sempre que precisava. Linhas negras, finas como galhos secos, desenhavam-se sob a pele e convergiam para um pequeno círculo abaixo da clavícula. Quando criança, Edrin achava que parecia uma aranha.

Depois aprendeu que aranhas eram livres.

O dono da taverna costumava dizer que música era a única coisa que um escravo podia produzir sem gastar farinha. Edrin já achara graça nisso, agora não achava mais.

Passou o polegar pelas cordas. A segunda nota veio baixa, depois a terceira. No fundo da sala, alguém murmurou o nome da canção.

– Céus Azuis.

Edrin ergueu os olhos.

Acima da lareira havia dois pequenos nichos de pedra. Num deles, uma figura feminina curvava a cabeça, mãos unidas sobre o colo, o rosto liso e sem olhos. No outro, outra figura sorria atrás de um véu talhado no mármore. Ninguém sabia seus nomes. Talvez jamais tivessem tido nomes. Na cidade, bastava dizer o que representavam: “Miséria e Submissão”, “Vergonha e Corrupção”. Havia igrejas inteiras erguidas para ambas. Torres, sinos, procissões, altares cobertos de ouro. Os sacerdotes ensinavam que a dor purificava e que obedecer era uma forma de paz.

Os pobres rezavam para a primeira. Os ricos faziam oferendas à segunda. E os escravos pertenciam às duas.

Edrin começou a cantar:

– Céus azuis, céus azuis... por que ficaram cinzentos?

Sua voz não era grande. Era pior que isso. Era verdadeira.

Algumas pessoas abaixaram os olhos.

Ele cantou sobre uma corda pendurada numa árvore, sobre uma coroa perdida no feno, sobre lobos que seguiam um homem até sua casa, embora homens como Edrin raramente tivessem casa alguma. Quando chegou ao verso da faca, os dedos apertaram o braço do alaúde... Havia uma cicatriz na palma de sua mão direita. O público não sabia de onde vinha. Seu pai soubera, sua mãe também. Ambos estavam mortos.

Edrin continuou.

 – “Pedras tornaram-se vermes. Feras tornaram-se hábitos.”

E por um instante ele voltou a ter oito anos.

Seu pai estava sentado ao lado de uma fogueira quase apagada, com as mãos inchadas depois de um dia quebrando pedras para a construção de uma nova igreja. A marca arcana dele cobria metade do pescoço. Era antiga, grossa e escura. Toda vez que desobedecia, brilhava em vermelho. Naquela noite, brilhava pouco.

– Sabe o que somos? – perguntara o homem.

Edrin conhecia a resposta: “Escravos”, mas nada respondeu. O pai apontou para a própria cabeça.

– Reis.

Edrin riu. Ambos riram.

– Reis sem terras. Reis sem ouro. Reis sem trono.

Depois abrira os braços, mostrando o barracão, a palha suja e os outros homens dormindo no chão.

– Reis dos tolos.

Naquela época Edrin pensara que era uma brincadeira. Demorou quinze anos para entender... Seu pai não estava dizendo que descendiam de reis. Não havia palácio perdido, brasão escondido. Não havia fortuna roubada esperando ser reclamada. Era algo pior, e mais bonito.

O pai dizia que havia uma espécie de loucura em continuar acreditando que um homem pertencia a si mesmo quando tudo no mundo dizia o contrário. O corpo podia receber uma marca, o nome podia constar num livro de propriedade, os filhos podiam nascer devendo uma dívida que jamais haviam contraído. Ainda assim, alguma coisa no fundo da alma continuava sentada num trono invisível.

Era uma coisa miserável. Ridícula. Perigosa. Mas estava lá...

Edrin cantou:

– Rei dos tolos, com cetro e coroa... – Mas dessa vez... alguém cantou com ele.

Uma voz baixa, quase um sussurro.

– Rei dos tolos, com cetro e coroa... – Edrin quase perdeu a próxima nota. Um carregador perto da parede acompanhava a música. Ele tinha uma marca arcana no antebraço, parcialmente escondida sob uma faixa suja. Edrin continuou...

Uma mulher junto à porta entrou no verso seguinte. Depois, um velho de mãos queimadas perto da lareira.

– Rei dos tolos, com cetro e coroa...

No balcão, um dos guardas franziu o cenho. Não era a primeira vez que ele ouvia aquela canção, Edrin já a cantara muitas noites para bêbados, mercadores, sacerdotes de passagem, para homens que riam alto demais e mulheres que choravam escondidas no fundo da sala.

O soar da corda se repetia no refrão, com as vozes misturadas que acompanhavam o som. Era como uma respiração que consegue encher um pouco o peito, mas nunca completamente. E assim, sucessivamente.

A música trazia o peso da miséria que Edrin sofria, em pequenas frases, alegorias que se sentiam verdadeiras. Sentiam verdadeiras porque a música falava de Edrin mas falava de todos ali.

Nunca ninguém o impedira de cantar. Era uma canção triste e homens tristes não são  perigosos. Um escravo podia cantar sobre a própria miséria, amaldiçoar a fome e lamentar os mortos. Podia até sonhar que era rei, desde que, ao fim da noite, se lembrasse de que não era. Isso seria até uma oferenda à Miséria, uma oferenda à Submissão.

“Rei dos tolos, com seu cetro e coroa

Sentado em seu trono, olhando abaixo.

Ele está cheio de furos, mas ainda levita,

Embora o chumbo pese preso ao pescoço.

Mãos de vidro, delicadas e transparentes...”

Havia mãos de vidro que ninguém amado conseguia enxergar. Sua mãe tinha mãos assim. Depois de anos lavando as roupas dos sacerdotes, a pele ficara tão fina que sangrava durante o inverno. Quando Edrin era pequeno, ela escondia as mãos dentro das mangas para que ele não visse. Mas ele via, os filhos sempre veem.

– “... Não podem ser vistas por aqueles que ele ama...” – Sua voz falhou, um pouco. Isso tornou a canção melhor.

Mais duas pessoas começaram a acompanhar. Depois três.

Edrin olhou para o guarda. O homem havia se endireitado na cadeira.

Foi então que Edrin ouviu as próprias palavras de um jeito diferente. Quando ele cantava sozinho, o Rei dos Tolos era seu pai, talvez fosse ele próprio; um homem miserável que, mesmo sem possuir sequer o próprio corpo, insistia em guardar dentro de si a lembrança absurda de que nascera homem e não propriedade. Mas quando vinte vozes cantavam juntas, já não havia um único Rei dos Tolos naquela sala, havia vinte, talvez cinquenta.

O guarda pareceu perceber antes dele.

Uma canção sobre um escravo era um lamento. Uma canção que fazia todos os escravos reconhecerem a si mesmos era outra coisa.

O homem largou o copo sobre o balcão, levantou– se. Sua mão repousou sobre o símbolo das duas igrejas preso ao peito. Edrin assitia, enquanto cantava. Então veio o último verso.

O mais difícil. O mais profundo. O mais doloroso e talvez onde mais todos se encontravam.

Falava de um herdeiro da desgraça, um homem que recebera dívida no lugar de herança, fome no lugar de terras, palha no lugar de lençóis. Vergonha no lugar de sobrenome.

Edrin não precisara inventar aquela parte. Quando nasceu, o escriba registrou seu nome abaixo do nome da mãe, não como filho, como acréscimo, mais uma propriedade, mais duas mãos. Mais uma vida que já pertencia a alguém antes mesmo de aprender a falar.

Ele tocou mais devagar.

– "Sua alma foi levada... e amarrada a um mastro..."

Agora até a lenha parecia queimar em silêncio.

Diante dele havia gente cansada. Trabalhadores, prostitutas, carregadores, ladrões. Escravos fingindo, ou sonhando, algumas horas de liberdade antes do sino da noite.

Todos olhando para ele.

Então veio o refrão.

Edrin não cantou mais alto.

Não precisava.

– "Como o girar da roda... como o frio do aço..."

O carregador, a mulher, o velho. Talvez Edrin podia jurar que todos na taverna escura mexiam seus lábios em ressonança. O som cresceu pelas paredes da taverna. O dono parou de limpar um copo, seu rosto parecia ter perdido a cor. Não porque a canção fosse proibida, ela não era. Tinham ouvido aquelas palavras dezenas de vezes e nunca haviam percebido o que havia dentro delas. “Miséria e Submissão” não temiam um homem que chorava sua sorte. “Vergonha e Corrupção” não temiam um escravo que acreditava ser indigno. Mas naquela noite ninguém parecia envergonhado, e ninguém cantava sozinho.

–... "Não adianta chorar na toca do leão..."

O segundo guarda se levantou, a cadeira raspou o chão. Algumas vozes morreram, outras não. A marca no peito de Edrin esquentou, um aviso. O dono da taverna fez um gesto desesperado: “chega!”, era isso que seus olhos diziam.

Edrin olhou novamente para as duas figuras sobre a lareira. A primeira mantinha a cabeça baixa. A segunda escondia o rosto atrás do véu. Durante toda sua vida ensinaram–lhe que uma queria sua obediência, a outra, sua vergonha. Talvez aquela fosse a verdadeira corrente. Talvez a corrente mais forte fosse acreditar que ela era devida.

Edrin tocou o refrão outra vez, mais forte. As vozes voltaram. O guarda deu um passo em sua direção, a marca arcana no peito de Edrin brilhou, a dor atravessou suas costelas. Branca, violenta. Seus dedos falharam por um instante, a taverna inteira viu, ninguém cantou e, por um segundo, Edrin pensou que a música tinha acabado. Então o carregador perto da parede retomou sozinho:

– "Como o girar da roda..."

A mulher junto à porta respondeu:

– "Como o frio do aço..."

O velho entrou em seguida.

Depois outro.

E outro.

Edrin ergueu a cabeça, a dor ainda estava lá. Mas agora, eles cantavam sem ele. Foi então que compreendeu, ele passara anos cantando sobre a própria dor, sem perceber, que cantara sobre a dor deles também, e aquela canção já não lhe pertencia.

O guarda avançou, a marca queimou outra vez, Edrin quase caiu do banco. Mesmo assim, sorriu.

Uma coisa estranha cresceu dentro de seu peito.Não esperança, esperança era uma palavra grande demais. Era algo menor. Mais perigoso... A lembrança de que seu pai estivera certo. Um homem podia ser comprado, podia ser vendido, podia nascer com o preço escrito antes mesmo de aprender o próprio nome. Podiam desenhar magia em sua pele, podiam ensinar–lhe obediência, podiam ensinar–lhe vergonha. Mas havia um lugar pequeno, absurdamente pequeno, onde nenhuma igreja conseguia pôr as mãos. E naquele lugar Edrin ainda usava uma coroa. De madeira. De palha. De nada. Uma coroa feita para um tolo.

A taverna silenciou quando ele voltou a tocar. O guarda estava a poucos passos. Edrin olhou para ele, depois olhou para as duas figuras sobre a lareira. E cantou o último verso sozinho:

– "Céus azuis, céus azuis... por que ficaram cinzentos?"

Ninguém respondeu.

Ele deixou a última nota morrer.

Então ergueu o rosto.

A marca ainda ardia. O guarda ainda estava diante dele. As igrejas ainda dominavam a cidade. Nada havia mudado, e, ao mesmo tempo, alguma coisa havia. Pela primeira vez em sua vida, Edrin não baixou a cabeça.

 

  

“Naquela noite, todos cantaram juntos. Como a roda continua girando, como o frio perene do aço. Não há uso para o choro, na toca do Leão.”


Manoela Brum

 


domingo, 28 de junho de 2026

Solitude

É difícil encontrar o lugar certo e os limites certos para uma planta florescer. Eu tinha uma roseira vermelha. Eu ganhei ela linda, cheia de flores, cheia de botões aveludados e carmesins. Ela viveu bem na minha sacada, até que chegou o verão. Eu sabia que ela precisava de sol, muito sol. Dentro de casa ela ficava triste, mas no verão ela também ficou triste. Ficou mais do que triste, ficou despedaçada. Eu sempre gostei tanto dela e eu não sabia o porquê. Ela secou e não importava o quanto eu regava-a, não era o suficiente. Ela não conseguia sobreviver com todo o fardo que o sol estava colocando sobre ela. Ela definhou. Ela perdeu toda a cor, beleza e força. O que antes lhe dava vida, agora estava a matando. Eu tirei ela do sol, mas não a pus muito longe. Deixei-a ao lado da sacada. E eu achei que ela estava com um ciclo encerrado. Eu achei que deveria podar-lhe severamente os galhos para que da força das raízes, saíssem novos. Mas não foi necessário.
Uma alma gentil a tirou do sol, do mesmo sol que antes a fazia sorrir e agora era pesado demais para ela. Outra alma gentil deu-lhe água, diariamente, silenciosamente. Alguns dias se passaram e as folhas todas sofridas e secas, simplesmente ressuscitaram. Não era o fim dela, não foi o fim daquele ciclo. Elas não caíram e nasceram novas, elas simplesmente tiveram a força e o apoio necessário para voltar a vida, e agora jazem verdejantes e sorrindo ao lado da porta. O sol ainda é muito forte para elas, então elas apenas o olham de longe, mas sorrindo.
Nós achamos o limite certo para ela, de sol e de água. Duas coisas que ela sempre precisa para permanecer viva, mas que, de ambas, às vezes mais e às vezes menos.
E isso me fez pensar, do que eu preciso para permanecer viva? Quais são as minhas duas coisas para permanecer viva?
Nós somos como plantas. Assim como plantas diferentes têm limites diferentes de sol e água, e mesmo limites que mudam com as estações, nós também temos limites diferentes. Nossos limites variam entre nós, e variam em nós mesmos dependendo das nossas estações. 
E uma varanda cheia de plantas, claro, é sempre mais bela. Mas em alguns momentos algumas dessas plantas não poderão estar lá junto com as demais, e se estiverem… elas vão definhar ao invés de florescer.

Manoela Brum 


sexta-feira, 12 de abril de 2019

Um lugar de pessoas suaves

Uma borboleta laranja bate suas asas. Caminha no ar, acaricia-o, toca-o como uma namorada. Ela não é grande, mas é vista, e sua graça é admirada, porque lá é um lugar de pessoas suaves.

O vento que confortou todo o encanto da borboleta faz o mesmo com eles, porque neste lugar as pessoas são suaves, suaves como ele.
Elas o sentem, o vêem e conversam com ele. Ele fala com elas pois sabe que será ouvido. No lugar de pessoas suaves o vento tem seu valor.

Da chuva ninguém se esconde. Neste lugar de pessoas suaves a chuva é doce. Não é sempre fraca, não é sempre quente, mas ela, eles também entendem. Ela fala com eles, assim como o vento, inclusive todos eles são grandes amigos, as pessoas, a chuva e o vento. Mas nem por serem amigos, estão sempre juntos. A chuva é reservada, tímida. Aqui ninguém acreditaria como poderia ela ser tão imperiosa e tão tímida ao mesmo tempo. Sim, ela cai sobre todos, mas é reservada. Eles lhe entendem e lhe dão seu espaço. Assim, quando imperiosa fala com eles, eles ouvem e lhe atendem a solidão. Fecham-se nas casas. Alguns até fecham as cortinas para lhe darem toda privacidade. Outros a observam de longe, através do vidro, ela não se importa. Outras vezes a chuva chega de mansinho e quando eles sentem seu cheiro perfumado, entendem que lhes chamam a companhia.

No lugar de pessoas suaves, tem um tempo pra cada coisa. As pessoas respeitam o tempo assim como entendem a chuva e apreciam o vento. 

Manoela Brum

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Eva flies away


“Dumb kid, living a dream
Romantic only on paper…”

Para mim é doce, delicado e com o suave perfume do jasmim. Eu cuidei da semente adormecida e ela floresceu. Floresceu não como um ramo displicente e descuidado, mas como uma árvore forte e estrondosa, que apenas precisava de um incentivo para acordar de seu sono esquecido.

Para mim é uma árvore exuberante, robusta e gigante, ostentando a força de várias vidas, sozinha, agora, esquecida.

Para você é cruel, pequeno e feio.

Ainda espero que um dia, amanhã ou daqui milhares, venhas te abrigar na sombra dessa grandiosa árvore, que te abraçará toda com carinho, curvando cada um dos seus imensos galhinhos.


(Fonte da Imagem: www.deviantart.com)

Manoela Brum

terça-feira, 31 de julho de 2018

Qual a maior realidade? A que vejo ou a que sinto?


O mundo é volátil demais. A volatilidade do pensamento, do sentimento. A volatilidade de um momento. Tudo o que eu senti pode ser nada, nada junto com meus pensamentos. O que é a fé? A esperança? Parece tudo tão tolo, pois pode ser uma crença em nada. E do que falo, ninguém imagina. Ninguém que não possa ler meus pensamentos e enxergar meus sentimentos. O que pensam os que podem? O que pensam de mim pensando isso?  Eu adorava me conectar com você, te sentir perto. Era bom sentir que tocava sua alma, que te conhecia. Agora eu desisti disso. O que eu vejo me desaponta, mesmo sem saber se é real. Qual a maior realidade? A que vejo ou a que sinto? Sempre será minha eterna pergunta. Eu queria fazer essa pergunta a você, mas você existe? Esta, uma das segundas maiores perguntas. A esperança ainda me faz chorar, isso não pode ser algo bom. Às vezes acho que estou louca... Sou louca se acho que estou louca? Dizem que os loucos não se acham loucos. Então não sou louca? Se não sou louca, minha loucura é real, mas não é loucura. Eu sinto que você apreciaria esta conversa, eu vejo seus sorrisos. Eu sorrio e me sinto louca. Ah... Meu mundo louco é tão bom.
Algo me diz para abandonar isso tudo porque é loucura. Qual parte de mim me diz isso? Eu tenho medo de descobrir. Mas tenho mais medo de nunca saber qual parte é real.

Manoela Brum

quinta-feira, 17 de maio de 2018

"Only the weak are not lonely"

Não gosto de pessoas fracas. Pessoas fracas não sabem se aceitar, não sabem sequer serem elas mesmas. Se fazem como os outros a aceitarão porque elas mesmas não são capazes de se aceitar. 
Pessoas fracas tem medo de ficarem sozinhas, por isso conversam com muitos, são todo sorrisos, mantendo sua mente ocupada pelo que seus ouvidos ouvem o maior tempo que puderem do dia. 
Maquiagem, risos e sorrisos apenas servem para esconder dos outros o que elas mesmas não conseguem aceitar ao olhar no espelho. 
Pessoas fracas não sabem pensar. Não gostam de pensar. Se escondem atrás de uma personalidade burra por não quererem pensar sobre si mesmas. É mais fácil dizer que não sabe do que resolver a situação. 
Primeiro você ri, depois sente pena e então chora. Como viver num mundo estúpido de pessoas fracas? Como essas pessoas conseguem viver? Como elas tem forças para andar? Se pudessem enxergar suas fraquezas, morreriam de desgosto. Sequer teriam mais forças para respirar. 
Usam essas fraquezas para fugirem de suas verdades, sem perceber que o desenho resultante é infinitamente mais desprezível.

De figuras miseráveis tão grandes seres poderiam se tornar, simplesmente sendo capazes, primeiro, de olhar para suas torpezas. Não é tão difícil. Basta ser íntegro o suficiente para aceitar responsabilidades e consequências. Só assim se é capaz de olhar para o espelho e ver a beleza das torpezas tão cuidadosamente cultivadas.

Manoela Brum

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Apenas deseje o horizonte

A eterna angústia do ver e do sentir. Eu gosto do que vejo e gosto do que sinto. Mas está longe.
Tão belo o horizonte e tão distante. A imponência de seu ser estarrece e assusta. Apresenta-se com imagens que seduzem. As mais atraentes cores, os mais atraentes perfumes. A mais perfeita armadinha. O horizonte é muito longe. Ele está lá para ser admirado, jamais alcançado. Ele está lá para inspirar. Tomar a mente, encantar o espírito, arrebatar a alma. Jamais para ser objetivo. Para ser protagonista em sonhos e poemas. Para gerar sentimentos, jamais para realiza-los.

E a cada findar de dia um sussurro apenas animará a sua fronte:
- Apenas deseje o horizonte.

Manoela Brum

sábado, 25 de novembro de 2017

Sleepwalker

[...] Parou de escrever e olhou para a janela pensando no quanto parecia loucura o que escrevia. Mas escrevia o que sentia. Mas pensava, então, que tudo o que sentia poderia ser apenas mais uma forma de fugir do que vivia. Será? Não sabia o que era, perdia-se da realidade nesses momentos em que, fechando seus olhos ou olhando para o nada, deixava seus pensamentos fluírem, fugirem, irem para onde desejassem junto com seus sentimentos. Aprendera o quanto era valorosa essa, que era a única, mas imensa, liberdade que tinha ali.
Manoela Brum

https://www.youtube.com/watch?v=fKJMKrX0Vlg


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

The rain again

“Todo aquele grande coração, deitado quieto, morrendo lentamente.
Todo aquele grande coração, deitado quieto, nas asas de um anjo.”

Todo aquele grande coração está morrendo lentamente. E está morrendo sob as asas do anjo que voa para longe. O anjo para o qual eu o dediquei. O anjo que se escondeu atrás de tua imponência.
Havia apenas uma coisa que era importante, a mais grandiosa e mais bela. Este anjo que eu vi, este que sorriu para mim, ele tentou sair. Ele tentou sair através de suas lágrimas. Eu sei, é difícil ser forte. Foram poucas as vezes que o pude tocar, foram poucas as vezes que o ouvi falar. Tentando ser forte prendeste-o dentro de ti, sem ver que a maior força ele te daria se o deixasses sair.
Te afundes o mais longe que, perdida, quiseres ir. Um dia terás de libertar o anjo que há dentro de ti. Um dia, como outra sombra ou talvez a mesma, eu estarei lá para ajuda-lo a sair.

Ainda escuto aquela voz ressoando no ar: Obrigada por, do que realmente importa, sempre lembrar.

Manoela Brum

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Apenas os fracos aceitam a superficialidade


https://www.youtube.com/watch?v=ukDEYRXoH2g

 

(Fonte: The Crown)

"Em alguma noite nós acordaremos pro carnaval da vida;
A beleza do passeio adiante, um inacreditável êxtase.
É difícil acender uma vela, mais fácil amaldiçoar a escuridão.
Este momento, o amanhecer da humanidade, 
O último passeio do dia"

Last Ride Of the Day - Tuomas Holopainen


Apenas os fracos aceitam a superficialidade. Apenas os fracos apreciam, convivem e desenvolvem o superficial. Porque é mais fácil, porque é mais bonito. Porque o superficial lhes propicia menos decepções, uma vez que não se pode decepcionar-se com o que não se conhece. Vivendo o superficial, a vida deles não passa disso. O entendimento deles não passa disso. O renascimento deles não passa disso. Os risos tornam-se superficiais, os relacionamentos, as alegrias, e até mesmo as tristezas. Eles não se entendem porque não conseguem acessar o profundo, pois aprenderam a viver na superfície. Não podem alcançar o que não conhecem. Só conseguem raciocinar sobre si mesmos na superfície em que estão acostumados, o que faz com que não encontrem muitas respostas, ou encontrem respostas incompletas.

“Conhece-te a ti mesmo” – Uma das mais antigas sabedorias.

Só é possível conhecer a si mesmo e conhecer o outro indo além. Quando se mergulha dentro do mar dos sentimentos, a profundidade não existe mais. A cada passo dado, a vida tem mais sentido, o mundo e suas peculiaridades têm algum significado e a vida na superfície não tem mais graça. A vida na superfície se torna vazia e você entende a tristeza dos superficiais. Aqui, a arrogância perde cada vez mais a sua razão de ser, pois, quanto mais se desce, mais coisas horrendas é possível encontrar, assim como belas. As horrendas vêm primeiro, no entanto, e por isso também os fracos não conseguem prosseguir, porque é difícil ver as coisas atrozes que jazem dentro de nós. Como ficará seu orgulho quando você perceber o quão abjeto você é? Como você se sentirá quando perceber seus próprios embustes? Por isso a arrogância não tem espaço aqui, porque ela nunca será forte o suficiente para enfrentar todas as verdades que o profundo mostra. Mas o belo... Ah, o belo. Ele é muito maior. O belo é maior porque coisas boas também jazem ali, mas também porque o aceitamento de suas próprias atrocidades é ainda mais belo. O aceitamento de si mesmo é tranquilo, é bonito, é forte e é paz.
O aceitamento de si mesmo ainda trará o aceitamento dos outros. E o aceitamento traz mais conhecimento. O conhecimento provoca sempre o estado de confusão, onde o orgulho tenta criar justificativas para o que foi descoberto. Se ele vencer, o estado de confusão não terminará e não será possível avançar. Para avançar ao profundo é preciso estar tranquilo, e para isso é necessário reconhecer e aceitar as piores torpezas encontradas até então. Portanto, o caminho ao profundo é exercício de humildade, é o caminho do conhecimento e é evolução. O caminho ao profundo é fatalidade, porque todos, um dia, mergulharão. A vida na superfície é vazia, é vaga, é sem graça. Não é possível compreender a felicidade vivendo na superfície. E não há sequer um ser pensante que não almeje a felicidade.


É preciso ser forte para mergulhar, é preciso ser forte para se conhecer, é preciso ser forte para se aceitar, é preciso ser forte para ser feliz.


Manoela Brum
Inspirado, entre outras coisas, no texto: Sete hábitos de pessoas cronicamente infelizes (http://www.portalraizes.com/7-habitos-de-pessoas-cronicamente-infelizes/)

sexta-feira, 24 de março de 2017

Você me tirou a última rosa branca


Você ri. Mesmo sem saber você ri e me rouba cada pequena gota que eu pude ter de algo que jamais me pertencerá. 
Você é a sereia que, após cantar, retorna para o mar, mergulha o mais profundo que pode mesmo sabendo que nada encontrará. 
Foi um nada que tornou-se tudo e retorna ao nada. 
Foi um momento que tornou-se silêncio. 
O silêncio que tanto me atordoou por tanto tempo. 
O silêncio que foi barulho, poesia e vácuo. 
O silêncio que foi perfume e lembrança. 
O silêncio que ficou, o silêncio que se foi.
Sinto sede pelas pequenas gotas de chuva que ainda restavam. 
Mas a sereia as levou.

A rosa que ganhei não vingou, 
a poesia que criei não ficou, 
a alma que almejei não voltou.
Mas eu ainda permaneço aqui olhando para as ondas
esperando que elas tragam de volta minha sereia, meu cisne.

Manoela Brum

segunda-feira, 6 de março de 2017

Medo, o Monstro



Ela abriu a porta devagar, não queria vê-lo, não queria que ele a visse. Logo que abriu a porta ouviu o piano, ele estava tocando piano. Ao abrir uma fresta maior, passou a enxerga-lo. Lá estava ele, tocando calmamente o piano, fazendo soar ao resto da casa uma melodia sublime. Cada tecla que os dedos dele empurravam fazia alguma fibra de sua alma vibrar, era como se o corpo dela fosse uma extensão do piano. Sentindo isso e olhando para ele ficou ali, vendo como tocava, vendo todo sentimento que colocava no que fazia. Ela sentia o sentimento que ele transmitia, mas isso a fazia sentir ainda pior. Ele fazia tudo aquilo que fizera naquela manhã com ela e depois, simplesmente sentava-se ao piano, serenamente, despreocupadamente, de maneira a coroar o momento tão desprezível com algo tão sublime como o som que suas mãos faziam sair daquele instrumento. Onde isso haveria de chegar? Como ele conseguia, após tê-la raptado para abusar sexualmente dela, tanto tempo quanto lhe fosse aprazível, simplesmente não sentir culpa e sentir-se tão ameno e alegre? Nenhum ser humano normal conseguiria agir desta forma. Ela pressentia tudo o que a esperava, e não queria passar por isso. Sim, qualquer coisa que lhe acontecesse seria melhor do que ficar naquela casa, à mercê daquele homem, daquele louco, e ter de aguentar tudo o que ele pretendia fazer com ela com o passar do tempo.
Isso era o que inundava sua mente enquanto ouvia aquela delicada melodia que se desenhava através das mãos de Tom. De fato, alguém capaz de fazer tudo o que havia feito com ela não parecia capaz de transmitir algo tão singelo através de sua música, mas o que ela não havia percebido é que a singeleza não estava presente somente nas músicas que ele tocava ao piano. Todo seu plano macabro fora envolto em zelo para que nada de mal atingisse sua vítima, para que ela chegasse intocada até ele. Uma vez em sua presença, fora rude, mas vestiu sua brutalidade em atitudes afáveis para que fossem fortes, mas minimamente descorteses. Há muito tempo já não conseguia mais sentir de forma suave, e se ele realmente fosse louco, essa era sua única loucura.
Suas mãos tremiam e seus olhos vertiam água. Ela sentia raiva e sentia como se seu corpo lhe clamasse para que tomasse alguma atitude. Mais que isso, sentia-se implorando a si mesma para não deixar-se passar por tudo o que imaginava que passaria. Mas sentia-se sem opções, caída em um buraco donde não teria como sair, e estaria sempre à espera dos favores dele, à mercê de suas vontades. Então lembrou-se das facas que jaziam afiadas no faqueiro na cozinha. Sentiu medo por imaginar que ele, em algum momento, usaria-nas contra ela e segurou ainda mais firme a porta, fechando-a silenciosamente. Quando a porta se fechou, o silêncio se fez em volta dela. Sem poder ouvir o som do piano, ouvia o som de seu próprio choro. O silêncio trouxe consigo uma imagem que tomou conta de sua mente e fê-la parar de chorar imediatamente. A esperança cresceu de uma só vez dentro dela. Havia imaginado usar uma das facas para machuca-lo, ele estava concentrado e não a veria chegando perto. Ela podia cravar-lhe uma faca no pescoço, ou cortar-lhe a garganta. Podia ainda tentar golpeá-lo nas costas, se ele não a visse chegando não teria tempo de reagir, se ela fosse certeira em seu ataque, conseguiria impossibilitá-lo e conseguiria fugir. Secou os olhos e abriu a porta devagar. Ele estava ainda imerso em sua música. Com os pés descalços para fazer-se mais furtiva desceu as escadas sem ser percebida. Uma vez no andar de baixo, foi rapidamente à cozinha e pegou a faca de tamanho médio. Foi rapidamente até a escada e, antes de subir, resolveu esconder a faca dentro de sua blusa para o acaso de ele parar de tocar antes que ela pudesse se preparar. Algo em sua mente soprou-lhe a dúvida sobre o que fazer se não conseguisse concretizar seu ato, como reagir então perante ele? Ela calou seu pensamento, não permitia-lhe a possibilidade de errar. Seria uma chance única, deveria agir rápido. Subiu as escadas e assim que pode vê-lo, diminuiu o passo e concentrou-se.
As mãos ágeis de Tom batiam incansavelmente sobre o teclado do piano fazendo soar pela casa uma melodia agradável e inquietante. Totalmente imerso em seu prazer, ele nem cogitava o que desenhava-se atrás de si. Lana, imersa em sua adrenalina, preparava-se cuidadosamente e analisava a melhor forma de ataca-lo. Ele estava movimentando-se mais agora, por tratar-se de uma música mais agitada, então ela não poderia tentar golpeá-lo de uma só vez, pois, tinha mais chances de errar, havia maior possibilidade de que a faca não atingisse o local certo e de que ele desviasse, e, se ela perdesse essa chance, sabia que não haveriam outras mais. Imaginou que a melhor forma seria, num movimento apenas, puxar a cabeça de Tom para trás segurando firme em seu cabelo comprido e enfiar a faca em sua garganta. Tudo o que ela precisava era ser rápida e não hesitar. Em um movimento cortava-lhe a garganta e estaria livre dele. Ou, se errasse um pouco, ele já estaria machucado e ela teria mais facilidade em se defender. Já posicionada em suas costas, perto o suficiente para alcança-lo em um passo largo, sentiu que o medo quase lhe fazia hesitar. O medo fez com que seus olhos enchessem-se de lágrimas e sua mão começasse a tremer. Ela percebeu que se hesitasse por mais um momento não conseguiria vencer-se a si mesmo para proteger-se de si mesmo. Deu um passo, com a mão esquerda puxou o cabelo de Tom e com a faca sendo empunhada o mais firme possível na mão direita, tendo o vértice apontado para si para posteriormente adentrar o pescoço de Tom, fez o movimento para atingir o pescoço de seu algoz. Pôde enxergar a faca entrando no pescoço de Tom enquanto exercia sua ação.
Tom, ao trocar para uma nota mais grave viu algo reluzindo sobre a superfície negra do piano e levantou os olhos até a origem para identificar o reflexo. Quando olhou para o reflexo viu alguém atrás de si com algo pontiagudo, mas não conseguira definir exatamente o que vira, pois sentiu sua cabeça sendo puxada para trás. Então enxergou a faca vindo ao seu encontro, mas teve tempo de segurá-la. Lana, ao perceber que Tom havia conseguido segurar seu braço, puxou-o, deitando a faca, colocando o lado da lâmina próximo ao pescoço de Tom e utilizou a mão que segurava seu cabelo para apoiar o lado cego da lâmina e dar-lhe maior força e firmeza ao puxa-la em direção ao pescoço dele. Dado a velocidade dos movimentos e a determinação de Lana em fazer com que a parte cortante da faca atingisse Tom, ele não pode segurar a faca como tentava, sendo obrigado a segurar com a mão esquerda a faca em sua parte cortante. Lana sentiu que a faca atingira a pele e puxou-a para o lado direito, para que ela cortasse a garganta de Tom. Tudo aconteceu tão rápido que ela não percebera, no entanto, que Tom havia colocado sua mão esquerda para proteger-lhe o pescoço e o gemido que ela ouvira e pensara que fora por conta de atingir o pescoço de Tom, fora, na verdade, por haver cortado sua mão esquerda que estava entre a faca e o pescoço.
Tom segurou com a mão direita a faca, depois que ela havia machucado sua mão esquerda, conseguindo desarmar Lana, que, estando nas costas dele, ainda achava-se vitoriosa. Ela, lentamente deslocou-se, mantendo certa distância, para o lado esquerdo de Tom, para verificar o estrago que deveria ter feito. Tom resmungava de dor, de cabeça baixa. Sua mão esquerda estava escondida a frente do seu corpo e a mão direita, com a faca suja de sangue, estava escorada sobre o piano.
O eco do piano já extinguia-se no ar, dando lugar ao silêncio. Tom havia parado de gemer e estava com a respiração alterada. Ele levantou a cabeça e olhou-a nos olhos. “Era para ele ter conseguido levantar a cabeça?” Pensou ela ao sentir seu corpo estremecer com o olhar dele. Seu olhar estava furioso, seus olhos estavam avermelhados, parecendo que deles verteria sangue, ela não entendia o que estava acontecendo. Ele, ainda encarando-a, levantou-se do piano, lentamente. Abriu sua mão e olhou-a, ela vertia sangue. Lana olhou para o pescoço dele, que não estava machucado, mas vira sua mão sangrando. Demorou alguns segundos para que percebesse que havia atingido a mão dele, em vez do pescoço, mas quando percebeu, sentiu o terror tomando conta de si. Sentiu o ar sumindo dos seus pulmões e seu corpo paralisando-se. Não conseguia respirar, não conseguia engolir a saliva, não conseguia se mexer. Ela sabia o que significava aquilo.
Olhou nos olhos dele, estavam impetuosos e ferozes. A fúria parecia querer sair pelo seus olhos para tomar-lhe o corpo. Sentiu suas mãos tremerem e seus olhos ensoparem-se. Tom deu um passo na direção dela. Ela tentou movimentar-se para trás, mas mal conseguia mexer-se, estava totalmente estarrecida. Ele olhou vagarosamente para a faca em sua mão direita e tornou a olhar para ela. Ela sentiu que a consequência tão negada por ela mesma em sua mente estava tomando forma a sua frente.
- Eu alguma vez maltratei você?
A pergunta dele, em tom baixo a chamou de volta para si, mas ela não sabia o que responder, as lágrimas escorriam em seu rosto e o pavor que sentia impedia-a de raciocinar sobre qualquer assunto.
- Eu alguma vez maltratei você?! – Gritou, impaciente.
- Não! – Respondeu ela, impulsivamente, por medo e susto. Ela nunca o havia visto levantar a voz. Aquele olhar furioso, avermelhado e úmido sobre si e aquele grito, desestabilizaram-na mais ainda, ela não sabia o que fazer, não sabia o que pensar, nem mesmo o que sentir.
- E é assim que você me retribui?! – Gritou novamente, atirando violentamente a faca ao chão.
Ela assustou-se novamente e desandou a chorar, encolhendo seus braços em frente ao corpo como um instinto de proteção.
- Desculpa – Falou ela, sem que sua voz, no entanto, conseguisse alcançar o ar através dos seus soluços. Pelos olhos nem mais conseguia enxerga-lo direito através da barreira que suas lágrimas formavam.
Dando vasão à sua fúria, Tom deferiu-lhe um tapa no rosto com as costas de sua mão direita, arrancando-lhe um rangido de dor e jogando-a ao chão com a força de sua bofetada. A forte pancada no rosto a deixou alguns instantes fora de si. Assim que voltou a si, sentiu uma dor e uma ardência imensurável em sua face esquerda e gosto de sangue em sua boca.
- Para o quarto agora! – Gritou Tom enquanto a segurou demasiadamente forte pelo braço e a jogou para o lado do quarto.
Ela foi imediatamente para o quarto, o mais rápido que conseguiu, e se jogou na cama, permanecendo sentada sem conseguir controlar seus soluços desesperados. Aqueles segundos foram infinitos. Tudo passou pela sua cabeça, desde as carícias delicadas de Tom na primeira vez que obrigou-a a fazer sexo com ele até seus próprios pensamentos transformando-o em um monstro. Ela percebeu que havia cometido um grande erro e que teria que pagar por ele, e o medo tomava conta de seu corpo não permitindo que controlasse seu choro.

Segundos depois ele abriu a porta vagarosamente e de lá a encarou. Ela sentiu seu corpo gelado e seu destino traçado.


Manoela Brum

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Graça miserável escondida

https://www.youtube.com/watch?v=P_YVvNrQ6fs

Viver sem saber o que vive, essa é a brincadeira.

Jamais erguer as cortinas, pois o que sinto não pode ser sentido. 
Ou antes, sentido é a única coisa que pode ser.

Explicado? Nunca. 

Justificado? De forma alguma. 

Contado? Apenas de um jeito que o mantenha guardado. 

Realizado? É uma palavra sem significado, para a alma que a alma nunca poderá ter; 
Para a pele que a pele nunca terá o prazer de tocar; 
Para o perfume que ao perfume nunca poderá se misturar; 
Para o sentimento que no sentimento nunca poderá se dissolver.

Manoela Brum

domingo, 20 de novembro de 2016

Crowning the moment

Eu andei por entre as nuvens.

Senti os raios do sol antes que pudessem tocar a terra.

Senti a brisa da chuva antes que ela se tornasse.

Fui levada pelo vento até o início do mundo.

Mas, eis que entrevi as montanhas, e não pude me desviar delas.

A visão do horizonte foi magnífica, mas seu impacto foi doloroso.

Caída sobre elas, sem a coragem do vento ou as carícias da chuva, entreguei-me às pedras que vi rolando.

A natureza tomou-me mais uma vez mostrando-me sua beleza.

Com meus dedos feridos por escalar suas pedras, cheguei ao topo e te dominei, ó imponente montanha orgulhosa.

Agora te enxergo por inteira, pois sobre ti estou.

Vejo todos os seus embustes, mas a visão que me dás, ainda me deslumbra.


Manoela Brum

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

What should be lost is there

"Eu ainda sinto. Está guardado, está calado, mas está ali, está vivo. E cada sorriso se transforma num doce momento, assim como cada doce momento torna-se mais um sorriso."

Eu poderia lhe dar o mundo,
Mas você não aceitaria.
Eu poderia fazer de tudo,
Mas em ti nada nasceria.
No fim, devo eu apenas aceitar
Que o maior, mais doce e suave
Sentimento, guardado deve estar.

Manoela Brum

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Deixe-me ser

Deixe-me ser.
Deixe-me ser um pedacinho do chão que você pisa.
Deixe-me ser.
Deixe-me ser um pouquinho do ar que respira.
Deixe-me ser.
Deixe-me ser o vento que acaricia a sua pele,
Os lábios que recebem seu sorriso,
A razão, que à vida te impele.

Manoela Brum

domingo, 22 de maio de 2016

Silêncio

Há algo que melhor dormir faça do que o silêncio?
Há algo que mais barulho faça do que o silêncio?
Posso dormir eternamente em teu silêncio
Sonhando com o cheiro dos teus cabelos
E com o calor do teu abraço.
Ouvindo tua voz em minhas memórias,
Lembrando o teu sorriso que agracia
E o teu olhar que, abarrotado de expressão, ilumina.
Em todo esse silêncio não há nada mais a fazer,
Apenas dormir.

Manoela Brum

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Doce impossibilidade

É loucura estar assim mergulhada em teu mar? 
Um mar no qual possivelmente não saberei nadar? 
No entanto, preciso da tua água. 
Tua água é a chuva que molha a minha terra e fá-la germinar. 
Sem tuas chuvas, 
não mais loucas emoções, 
não mais desejo sonhador, 
não mais lindas músicas,
não mais escritos, nem poemas, 
não, ainda uma vez, 
não mais florescer de nenhuma bela flor.

Manoela Brum

sábado, 7 de maio de 2016

Chorando as lágrimas que irei engolir

"No final você está sozinho e ninguém aparece para te buscar." Person of Interest

É assim que me sinto quando vejo que sorrisos amigos já não são mais os mesmos. Novamente. Um grupo que o tempo perfurou, invadiu, alterou.
"Deixe no passado. Apenas deixe no passado."
As coisas mudam, sempre mudaram e sempre vão mudar. Ou você deixa as mudanças adentrarem e alterarem o que jamais será novamente imaculado, ou aceita que as coisas mudaram e as deixa no passado.
Mas... Sinto-me dependente... Penso que para desistir precisaria de algo para compensar a perda. Mas nunca terei. Sempre haverá algo a perder e sempre haverá algo a compensar, mas nunca a compensação.
Então deveria apenas aceitar as mudanças que o mundo esfrega na minha cara? Aceitá-las e vê-las tornarem-se parte do usual? Mas e como eu fico perante isso? Eu não importo? Por quantas vezes mais? Por quanto tempo mais?
Para no final, cada lágrima se tornar símbolo vergonhoso do que perdi, de mim ou deles.


Manoela Brum

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Diálogo de um sonho

Vassalo com timidez começou a perguntar.
Suserano com timidez começou a falar.
Suserano cala-se.
Vassalo cala-se.
Vassalo ousa continuar a perguntar.
Suserano entrega-se e continua a contar.
Vassalo se esforça para tentar alcançar.
Suserano volta-se e se entrega a seu mar.
Vassalo suplica por água.
Suserano lhe presenteia com as gotas da sobra.
Vassalo se sente feliz.
Mas vassalo deseja mais.
Vassalo não sabe parar.
Vassalo volta a perguntar.
Suserano volta a falar.
Vassalo, despe-se.
Suserano aprecia e, põe-se a perguntar.
Vassalo não sabe mais voltar.
Suserano deixa-o entrar.
Vassalo não sabe como agir;
Vassalo vai continuar a perguntar.
Vassalo deseja apenas um lar:

O coração de seu suserano, despido, a lhe clamar.

Manoela Brum